Autobiografia Precoce apresenta Pagu narrando a propria vida sem a intermediacao das interpretacoes que durante decadas ajudaram a construir sua imagem publica. Escrito em 1940, depois de anos marcados por militancia, perseguicao politica e sucessivas prisoes, o relato recupera acontecimentos pessoais e politicos que formaram Patricia Galvao, permitindo que a mulher por tras do personagem historico examine a propria trajetoria com franqueza incomum.
Pagu retorna a juventude e as experiencias que contribuiram para sua formacao afetiva e intelectual, abordando sexualidade, maternidade, relacoes familiares e os conflitos produzidos por uma personalidade que frequentemente se chocava com as expectativas impostas as mulheres de sua epoca. O relacionamento com Oswald de Andrade ocupa lugar importante nesse percurso, aparecendo nao apenas como encontro amoroso, mas como parte de um periodo decisivo de sua vida artistica, politica e emocional.
A militancia comunista constitui outro eixo fundamental do relato. Pagu descreve sua aproximacao com o Partido Comunista, o envolvimento intenso com a atividade revolucionaria e os sacrificios exigidos por essa escolha. Prisoes, perseguicoes, viagens e experiencias de extrema vulnerabilidade revelam o preco pessoal de uma dedicacao politica que durante determinado periodo organizou praticamente todos os aspectos de sua existencia.
O entusiasmo revolucionario, porem, da lugar progressivamente ao desencanto. A autora relata conflitos com estruturas partidarias e questionamentos surgidos a partir de sua experiencia direta com o movimento comunista e com a realidade sovietica. Esse processo transforma a autobiografia tambem em testemunho sobre a crise de uma conviccao politica, mostrando uma mulher obrigada a reconsiderar ideias as quais havia dedicado parte substancial da juventude.
Ao escrever sobre filhos, amores, sexualidade, militancia, prisao e desilusao ideologica, Pagu desmonta a imagem simplificada que frequentemente a reduziu a musa modernista, companheira de homens celebres ou figura escandalosa. Autobiografia Precoce devolve a propria Patricia Galvao o direito de narrar sua experiencia e revela uma personalidade contraditoria, vulneravel, combativa e intelectualmente inquieta, oferecendo um testemunho singular sobre uma mulher que atravessou alguns dos principais conflitos culturais e politicos do Brasil na primeira metade do seculo XX.