Bras Cubas comeca sua historia de uma posicao impossivel para qualquer memorialista comum: ele ja esta morto. Livre das convencoes sociais e da necessidade de preservar a propria reputacao, o defunto-autor decide narrar sua existencia com uma franqueza tao mordaz quanto suspeita. Em vez de apresentar uma trajetoria exemplar, reconstroi uma vida marcada por privilegios, ambicoes frustradas, relacoes incompletas e pelo desejo constante de obter reconhecimento.
Nascido em uma familia abastada da elite brasileira do seculo XIX, Bras atravessa a juventude cercado pelos beneficios de sua posicao social. Vive paixoes, estuda Direito em Coimbra e retorna ao Brasil sem uma vocacao verdadeiramente definida. Entre seus envolvimentos amorosos destacam-se relacoes como a paixao juvenil por Marcela e, mais tarde, o caso com Virgilia, mulher casada que ocupa posicao central em suas lembrancas e expoe as contradicoes entre desejo, aparencia social e conveniencia.
Sua vida profissional e politica eh igualmente marcada pela inconsistencia. Bras procura prestigio, aproxima-se da vida publica e sonha com projetos capazes de eternizar seu nome, mas raramente demonstra disposicao para realizar algo que ultrapasse sua propria vaidade. O maior simbolo dessa ambicao eh o Emplasto Bras Cubas, medicamento que ele imagina capaz de aliviar a melancolia humana, embora reconheca que por tras da justificativa filantropica existe principalmente o desejo de tornar-se celebre.
Ao revisitar a propria historia, Bras comenta tambem as pessoas que passaram por sua vida, entre elas Quincas Borba, antigo conhecido que desenvolve uma peculiar filosofia chamada Humanitismo. Esses encontros servem para ampliar a critica de Machado de Assis as ideias, hierarquias e valores de sua epoca. O narrador observa a sociedade com sarcasmo, mas suas analises frequentemente revelam tanto sobre suas proprias limitacoes quanto sobre aqueles que critica.
Memorias Postumas de Bras Cubas transforma a autobiografia de um homem pouco extraordinario em uma investigacao devastadoramente ironica da condicao humana. Ao narrar fracassos, amores, ambicoes e pequenas crueldades depois da morte, Bras Cubas oferece um retrato da elite brasileira e, simultaneamente, expoe mecanismos universais de vaidade, egoismo e autojustificacao. Entre humor sombrio, experimentacao narrativa e reflexao filosofica, Machado de Assis constroi um romance em que o morto parece enxergar com maior clareza justamente porque ja nao precisa fingir que viveu melhor do que realmente viveu.