- Colecao Dramaturgia
Sisifo parte de um dos mitos mais conhecidos da mitologia grega para investigar a experiencia humana diante da repeticao, do tempo e da necessidade constante de recomecar. Condenado a empurrar eternamente uma pedra ate o topo de uma montanha para ve-la retornar ao ponto de partida, o personagem mitologico torna-se o ponto de partida para uma reflexao sobre aquilo que significa atravessar a vida sem saber exatamente como preencher o caminho entre um comeco e um fim.
Na peca, a travessia ocupa o centro da experiencia dramatica. O ator aparece sobre uma rampa e dentro de uma linha reta que, embora pareca simples, contem inumeras possibilidades de deslocamento. Sao diferentes passagens que exploram a repeticao e a transformacao, fazendo com que o percurso deixe de ser apenas um caminho entre dois pontos e passe a representar a propria existencia.
A dramaturgia aproxima o mito antigo do universo hiperconectado do presente. Memes, gifs e videogames entram em dialogo com a historia de Sisifo, especialmente com a ideia de permanecer preso a mesma fase e repetir continuamente determinadas acoes. A tecnologia e a cultura digital passam, assim, a funcionar como novas imagens para uma condicao humana muito antiga: insistir, fracassar, retornar e tentar novamente.
A dimensao individual da repeticao tambem se conecta a experiencia coletiva. O Brasil contemporaneo surge como um espaco marcado por contradicoes que parecem se reproduzir continuamente, criando a sensacao de que determinados problemas permanecem enquanto as pessoas sao obrigadas a percorrer novamente os mesmos caminhos. A pedra de Sisifo deixa de ser apenas um objeto mitologico e passa a simbolizar os obstaculos que atravessam individuos, sociedades e geracoes.
Ao transformar a eterna escalada em uma investigacao sobre o sentido da travessia, Sisifo questiona o que acontece entre o ponto de partida e o ponto de chegada. A obra sugere que talvez o percurso seja mais importante do que o destino e que a repeticao, apesar de sua dimensao absurda, tambem possa conter possibilidades de descoberta, transformacao e recomeco. Entre o mito grego e o mundo dos memes, a peca constroi uma metafora poetica e contemporanea sobre a vida, seus ciclos e a insistencia de continuar caminhando.