Em setembro de 1878, o jovem Robert Louis Stevenson parte do vilarejo de Le Monastier, no sul da Franca, decidido a atravessar a cadeia montanhosa das Cevenas a pe. Para transportar seus poucos pertences, leva consigo uma jumenta chamada Modestine, companheira de viagem que rapidamente demonstra possuir vontades muito proprias. Durante doze dias, entre 22 de setembro e 3 de outubro, Stevenson percorre caminhos montanhosos ate chegar a Alais, transformando a travessia em um diario repleto de observacoes sobre paisagens, pessoas, historia e costumes.
A presenca de Modestine da a viagem seu principal elemento de humor. Teimosa, lenta e aparentemente indiferente aos planos do viajante, a jumenta frequentemente empaca, escolhe seu proprio ritmo e transforma tarefas simples em pequenas batalhas. Stevenson narra essas dificuldades com ironia e espontaneidade, fazendo da relacao entre homem e animal um dos eixos centrais do relato. Aos poucos, Modestine deixa de ser apenas o animal responsavel por carregar a bagagem e passa a ocupar um papel fundamental na propria experiencia da viagem.
Enquanto avanca pelas montanhas, Stevenson atravessa vilarejos, regioes rurais e lugares marcados pela memoria das guerras religiosas que envolveram protestantes e catolicos nas Cevenas. O percurso tambem o coloca diante de diferentes formas de hospitalidade. Em alguns momentos, encontra abrigo em albergues e construcoes religiosas; em outros, escolhe dormir ao ar livre, sob o ceu noturno, descobrindo na paisagem uma especie de hospedagem natural que ele chama de "estalagem verde".
Mais do que registrar uma simples caminhada pela Franca, Stevenson utiliza o deslocamento para refletir sobre liberdade, solidao, simplicidade e convivencia. A lentidao da viagem permite que cada paisagem, encontro e dificuldade adquira importancia, enquanto o contato com a natureza contrasta com os ritmos mais convencionais da vida cotidiana. O viajante tambem percebe que caminhar significa aceitar desvios, imprevistos e limitacoes, especialmente quando sua companheira de quatro patas nao parece disposta a colaborar com seus planos.
Ao final da jornada, Viagem com um Burro pelas Cevenas se revela tanto um relato de aventura quanto um retrato intimo de uma experiencia de viagem. A presenca de Modestine transforma o percurso em uma narrativa de convivencia, humor e descoberta, enquanto as montanhas das Cevenas se tornam cenario para uma reflexao sobre a liberdade de simplesmente seguir uma estrada. O posfacio de Gilles Lapouge amplia essa perspectiva ao considerar a tradicao dos escritores viajantes e ao sugerir que Modestine, apesar de carregar a bagagem, talvez seja a verdadeira condutora de toda a viagem.